quinta-feira, 3 de maio de 2018

Poemas sobre a Mãe



Fala de Mãe e Filho

«Meu filho: 

onde vais 
que tens do rio o caminhar?» 

Não espreites a estrada, mãe, 
que eu nasci 
onde o tempo se despenhou. 

«Meu filho: 
onde te posso lembrar 
se apenas te dei nome para te embalar?»  

Mãe, minha mãe: 
não te pese saudade 
que eu voltarei sempre 
como quem chega do mar. 

«Meu filho: 
onde te posso nascer 
se meu ventre seco 
nunca ninguém gerou?»  

Mãe, nascerás sempre 
na pedra em que te escuto: 
a tua ausência, meu luto, 
teu corpo para sempre insepulto. 


Mia Couto, in 'Tradutor de Chuvas' 




Pequena Elegia de Setembro

Não sei como vieste, 

mas deve haver um caminho 
para regressar da morte. 

Estás sentada no jardim, 
as mãos no regaço cheias de doçura, 
os olhos pousados nas últimas rosas 
dos grandes e calmos dias de setembro. 

Que música escutas tão atentamente 
que não dás por mim? 
Que bosque, ou rio, ou mar? 
Ou é dentro de ti 
que tudo canta ainda? 

Queria falar contigo, 
Dizer-te apenas que estou aqui, 
mas tenho medo, 
medo que toda a música cesse 
e tu não possas mais olhar as rosas. 
Medo de quebrar o fio 
com que teces os dias sem memória. 

Com que palavras 
ou beijos ou lágrimas 
se acordam os mortos sem os ferir, 
sem os trazer a esta espuma negra 
onde corpos e corpos se repetem, 
parcimoniosamente, no meio de sombras? 

Deixa-te estar assim, 
ó cheia de doçura, 
sentada, olhando as rosas, 
e tão alheia 
que nem dás por mim. 

Eugénio de Andrade, in 'Antologia Poética'





Mãe

Conheço a tua força, mãe, e a tua fragilidade.
Uma e outra têm a tua coragem, o teu alento vital.
Estou contigo mãe, no teu sonho permanente na tua esperança incerta
Estou contigo na tua simplicidade e nos teus gestos generosos.
Vejo-te menina e noiva, vejo-te mãe mulher de trabalho
Sempre frágil e forte. Quantos problemas enfrentaste,
Quantas aflições! Sempre uma força te erguia vertical,
sempre o alento da tua fé, o prodigioso alento
a que se chama Deus. Que existe porque tu o amas,
tu o desejas. Deus alimenta-te e inunda a tua fragilidade.
E assim estás no meio do amor como o centro da rosa.
Essa ânsia de amor de toda a tua vida é uma onda incandescente.
Com o teu amor humano e divino
quero fundir o diamante do fogo universal.

António Ramos Rosa, in 'Antologia Poética' 





Mãezinha

A terra de meu pai era pequena 

e os transportes difíceis. 
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem mísseis. 
Corria branda a noite e a vida era serena. 

Segundo informação, concreta e exacta, 
dos boletins oficiais, 
viviam lá na terra, a essa data, 
3023 mulheres, das quais 
43 por cento eram de tenra idade, 
chamando tenra idade 
à que vai desde o berço até à puberdade. 
28 por cento das restantes 
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes. 
Umas, viúvas, que nunca mais (Oh nunca mais!) tinham sequer sorrido 
desde o dia da morte do extremoso marido; 
outras, senhoras casadas, mães de filhos... 
(De resto, as senhoras casadas, 
pelas suas próprias condições, 
não têm que ser consideradas 
nestas considerações.) 

Das outras, 10 por cento, 
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas, 
mas que, por temperamento, 
ou por outras razões mais ou menos secretas, 
não se inclinavam para o casamento. 

Além destas meninas 
havia, salvo erro, 32, 
que à meiga luz das horas vespertinas 
se punham a bordar por detrás das cortinas 
espreitando, de revés, quem passava nas ruas. 

Dessas havia 9 que moravam 
em prédios baixos como então havia, 
um aqui, outro além, mas que todos ficavam 
no troço habitual que meu pai percorria, 
tranquilamente, no maior sossego, 
às horas em que entrava e saía do emprego. 

Dessas 9 excelentes raparigas 
Uma fugiu com o criado da lavoura; 
5 morreram novas, de bexigas; 
outra, que veio a ser grande senhora, 
teve as suas fraquezas mas casou-se 
e foi condessa por real mercê; 
outra suicidou-se 
não se sabe porquê. 

A que sobeja 
Chamava-se Rosinha. 
Foi essa a que meu pai levou à igreja. 
Foi a minha mãezinha. 

António Gedeão, in 'Antologia Poética'





Para Sempre


Por que Deus permite 

que as mães vão-se embora? 
Mãe não tem limite, 
é tempo sem hora, 
luz que não apaga 
quando sopra o vento 
e chuva desaba, 
veludo escondido 
na pele enrugada, 
água pura, ar puro, 
puro pensamento. 
Morrer acontece 
com o que é breve e passa 
sem deixar vestígio. 
Mãe, na sua graça, 
é eternidade. 
Por que Deus se lembra 
— mistério profundo — 
de tirá-la um dia? 
Fosse eu Rei do Mundo, 
baixava uma lei: 
Mãe não morre nunca, 
mãe ficará sempre 
junto de seu filho 
e ele, velho embora, 
será pequenino 
feito grão de milho. 

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'






Palavras para a Minha Mãe


Mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses 

as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. 
Sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente. 

Pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste 
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te 
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente. 

Às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, 
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia 
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz. 

Lê isto: mãe, amo-te. 

Eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não 
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que 
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não 
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes. 

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão" 



O Menino de Sua Mãe


No plano abandonado 
Que a morna brisa aquece, 
De balas trespassado 
— Duas, de lado a lado —, 
Jaz morto e arrefece. 

Raia-lhe a farda o sangue. 
De braços estendidos, 
Alvo, louro, exangue, 
Fita com olhar langue 
E cego os céus perdidos. 

Tão jovem! que jovem era! 
(Agora que idade tem?) 
Filho único, a mãe lhe dera 
Um nome e o mantivera: 
«O menino da sua mãe». 

Caiu-lhe da algibeira 
A cigarreira breve. 
Dera-lha a mãe. Está inteira 
E boa a cigarreira. 
Ele é que já não serve. 

De outra algibeira, alada 
Ponta a roçar o solo, 
A brancura embainhada 
De um lenço... Deu-lho a criada 
Velha que o trouxe ao colo. 

Lá longe, em casa, há a prece: 
«Que volte cedo, e bem!» 
(Malhas que o império tece!) 
Jaz morto, e apodrece, 
O menino da sua mãe. 

Fernando Pessoa, in 'Antologia Poética'





Mãezinha

Andam em mim fantasmas, sombras, ais... 

Coisas que eu sinto em mim, que eu sinto agora; 
Névoas de dantes, dum longínquo outrora; 
Castelos d'oiro em mundos irreais... 

Gotas d'água tombando... Roseirais 
A desfolhar-se em mim como quem chora... 
— E um ano vale um dia ou uma hora, 
Se tu me vais fugindo mais e mais!... 

Ó meu Amor, meu seio é como um berço 
Ondula brandamente... Brandamente... 
Num ritmo escultural d'onda ou de verso! 

No mundo quem te vê?! Ele é enorme!... 
Amor, sou tua mãe! Vá... docemente 
Poisa a cabeça... fecha os olhos... dorme... 

Florbela Espanca, in 'Antologia Poética'


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